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Copa América da fraude: como os golpistas ameaçam o e-commerce do continente

Por 11 de julho de 2019 janeiro 30th, 2020 Nenhum comentário

Bem amigos da Rede Globo Konduto! Haaaaja coração, amigo! Pode isso, Arnaldo? Quem é que sooobe!

Aqui na Konduto, entramos no clima futebolístico das últimas semanas e, enquanto comemorávamos o título da Copa América da nossa Seleção masculina, pensamos: e se rolasse uma Copa América de fraude com alguns países deste cantinho tão especial do planeta?

Bom, antes de mais nada é importante ressaltarmos que diferentemente do popular futebol, no qual achar o resultado de uma partida é tão fácil quanto a tabuada do um, os dados sobre fraude na América Latina infelizmente não são muito difundidos, até por causa do e-commerce ainda incipiente em alguns dos países.

No entanto, pegamos as informações que temos aqui na Konduto e fomos pesquisar. Pedimos ajuda à nossa querida amiga Mari Soto, analista de risco dos nossos parceiros do EBANX, o maior facilitador de pagamentos do continente, e também colhemos outros dados do “Relatório E-commerce 2018 da América Latina”, elaborado pela E-commerce Foundation. Como resultado, trazemos abaixo um pequeno panorama sobre fraude e o varejo eletrônico em geral no México, no Brasil, na Argentina, no Chile, na Colômbia e no Peru.

Ah, e outra coisa diferente do futebol é que nesta “competição” de fraudes não temos um campeão. Pelo contrário. Como já falamos algumas vezes, todos perdem com a fraude: os consumidores, que enfrentam uma série de dores de cabeça até serem reembolsados e podem perder a confiança de comprar on-line futuramente; os varejistas, que tomam o prejuízo dos chargebacks; os intermediadores de pagamento, que ficam sem a porcentagem da compra e gastam recursos em atendimento e devolução; bancos e operadores de cartão, que também mobilizam esforços em atendimento ao cliente, além de muitas vezes precisarem gerar um novo cartão; e, finalmente, a economia dos países, que deixam de ganhar milhões por causa das fraudes no comércio eletrônico.

Nossa ideia não é falar qual é o país campeão da “Copa América” da fraude, e sim contar um pouquinho das características dos criminosos cibernéticos nos principais países da América Latina.

Pronto. Acabou a cerimônia de abertura. Nossa Copa América da fraude está começando!

México

O líder em fraudes na América Latina é o México. Segundo dados da Konduto, cerca de 5% das compras on-line no país sofrem tentativa de fraude. Já a Comissão Nacional para a Proteção e Defesa dos Usuários dos Serviços Financeiros (Condusef) estimou que em 2017 as fraudes no comércio eletrônico acarretaram uma perda de 3,7 bilhões de pesos mexicanos (na cotação atual, isso dá um pouco mais de R$ 74 milhões).

Uma característica do fraudador no México é a persistência. Sim, o criminoso tenta buscar brechas ou buracos no sistema de determinada loja às vezes por meses, com muita criatividade e sem desistir. Ao mesmo tempo, até hoje não há uma legislação no país que determine que o custo do chargeback será do e-commerce, do banco, do adquirente ou até do consumidor.

A fama de fraude e a falta de regras se refletem em uma postura mais conservadora dos lojistas mexicanos, que negam mais pedidos e, consequentemente, têm uma taxa de conversão mais baixa. Elementos que combinados brecam a evolução do e-commerce de um país cuja população já ultrapassa 130 milhões de pessoas – e com 56% de penetração da Internet.

Brasil

Bem, você já viu no nosso Raio-X da fraude 2019 (se não viu, baixe aqui e a gente te desculpa) que as tentativas de fraude no e-commerce brasileiro somaram 2,20% no ano passado – o que corresponde a uma tentativa de compra fraudulenta a cada 6,5 segundos. E também já falamos bastante que em terras tupiniquins o custo do chargeback vai parar no bolso do varejista.

Os criminosos que colocam o país neste nada honroso segundo lugar em fraude na América Latina – e sempre entre os primeiros dos mais variados rankings de golpes em nível global – usam muito mais a tecnologia se comparados aos outros países da região. Por aqui, como já falamos, são muito comuns ataques usando bots, geração de scripts, sistemas maliciosos e afins, além dos famosos testadores de cartão.

Ah, e aquela história de “sou brasileiro e não desisto nunca” não costuma colar quando analisamos os fraudadores, que por aqui são bem mais, digamos, dinâmicos que os mexicanos. Resultado: se não está conseguindo em uma loja, o criminoso procura outra, sempre buscando produtos de maior liquidez e tentando concluir o golpe o mais rápido possível.

Argentina

Uma boa notícia para os varejistas locais – e também para quem pensa em entrar no mercado on-line do país – é que os fraudadores na Argentina estão, para ficar na analogia com o futebol, nas categorias de base se compararmos com outras nações. Os criminosos tentam concluir os golpes com comportamentos de navegação que são facilmente perceptíveis por sistemas antifraudes, e testadores de cartão são raros de encontrar. Já os dados cadastrais, muitas vezes insuficientes no Brasil para concluir um golpe, ainda são um prêmio para os golpistas do país vizinho.

Vale ressaltar que a Argentina é um dos países latino-americanos mais promissores quando o assunto é o e-commerce, mesmo com o recente agravamento da crise econômica. Relatório da E-commerce Foundation estima que a penetração da Internet no país seja de 78%, um dos maiores da região, e o uso de tecnologias mobile aumenta ano a ano.

Segundo um estudo da Câmara Argentina de Comércio Eletrônico, o e-commerce cresceu 52% em 2017 no país e teve mais de 95 milhões de produtos vendidos. O ticket médio de compra foi de 2.600 pesos, o equivalente a R$ 235 na cotação de hoje. Os alvos dos fraudadores na maioria das vezes são produtos de alto valor e serviços como viagens.

Colômbia

Podemos dizer que os colombianos jogam na retranca no combate à fraude. O país foi pioneiro ao publicar em 1999 uma lei para promover o comércio eletrônico, com iniciativas como assinatura eletrônica e princípio de equivalência funcional. Além disso, o combate aos golpistas também fica a cargo de uma instituição governamental.

Ataques massivos de fraudadores são uma raridade por lá, ao mesmo tempo em que muitas vezes um simples sistema de regra é capaz de barrar uma compra ilegal. Ainda é muito comum criminosos se concentrarem em sites de fachada e anúncios falsos nas redes para tentar enganar o bom cliente.

Essa regulamentação forte ajuda a prevenir a fraude, mas ao mesmo tempo dificulta a expansão do e-commerce na Colômbia, ainda carente de lojas virtuais desenvolvidas e com boas experiências de compra on-line. Nos últimos anos, porém, o país viveu um boom. Segundo pesquisa do instituto Blacksip, o comércio eletrônico registrou 87 milhões de transações em 2017, 36% a mais do que o ano anterior. Os fraudadores certamente vão tentar tirar uma casquinha desta expansão.

Chile

O índice de fraudes no comércio eletrônico no Chile historicamente foi baixo em relação a outros países na região. O “sucesso” é explicado em grande parte pela Transbank, uma empresa que surgiu a partir da união de oito bancos e monopolizou por muito tempo o mercado de transações de cartões de crédito e débito – inclusive as compras on-line, pela plataforma “webpay”.

De dois anos para cá, porém, os consumidores e varejistas locais passaram a ter mais opções. A abertura de uma concorrência com mais de 70 empresas do setor ao redor do mundo permitiu que novos meios de pagamento surgissem no país, e o modelo de transação completa, sem processamento de autenticação, chegou ao Chile. Algo positivo se pensarmos em livre-mercado, mas que também apresentou um “novo mundo” aos fraudadores, com possibilidades de práticas como testes de cartão.

Estima-se que o e-commerce no Chile cresceu 30% em 2018 e deve repetir o desempenho neste ano, movimentando US$ 6,5 bilhões. Com uma economia sólida ao longo da década, o país é conhecido por ter também o ticket médio mais alto nas transações on-line entre todas as nações latino-americanas.

Peru

Enquanto no futebol o Peru surpreendeu e foi vice-campeão da Copa América, perdendo a final para o Brasil, os fraudadores do país não são muito competitivos. Ao tentar aplicar um golpe, os criminosos muitas vezes não mostram coerência de dados ou se preocupam em fazer a transação parecer legítima.

Um caso comum, acredite, são e-mails criados por golpistas que aparentam simplesmente ter batido a mão no teclado sem critério. Por exemplo: sdmngonwrognoew@ifewnif.com (este foi o que saiu aqui comigo). Qualquer análise manual desconfiaria deste endereço, certo?

Segundo a Câmara de Comércio de Lima, cerca de 6 milhões de peruanos fazem compras on-line, mas estima-se que 22 milhões de pessoas já tenham acesso à Internet. O setor cresceu 10% no ano passado e, de acordo com o órgão, deve avançar 100% nos próximos cinco anos.

Moral da história

O que podemos concluir depois deste pequeno tour pelo continente? A primeira coisa é que nenhum país está imune à fraude, seja ela feita por um hacker 3.0 ou por um cidadão que cria e-mails ao dormir com a cabeça no teclado. A segunda – e muito mais importante – é que todos os seis países analisados, independentemente do momento econômico, registraram crescimento no comércio eletrônico nos últimos anos e seguem com excelentes projeções para o setor.

Com tudo isso em conta, vale a pena deixar de investir no setor apenas por medo da fraude, um inimigo contra o qual você pode lutar? A resposta é não. As oportunidades no e-commerce da América Latina são muito maiores do que os riscos, conforme ensinaram os especialistas do EBANX em um webinar muito massa (com a participação da Mari e também do nosso amigo Marcelo Palú) que serviu de ideia para escrevermos este texto.

Também é importante enumerar algumas razões que deixam o México e o Brasil tão à frente neste ranking de fraudes, como por exemplo o contexto socioeconômico. Afinal, estes dois países são as maiores economias latinas, possuem as maiores populações e uma alta disparidade social, além de um sistema de venda on-line bem maduro. Com isso, a “migração” de criminosos do mundo real para o virtual foi quase um movimento natural.

Para completar, tanto Brasil como México só emitem cartões de crédito com chip EMV, o que tornou quase impossível a clonagem “física” de cartões e empurrou os criminosos para o cenário on-line. Falamos bastante sobre isso neste texto aqui.

Quer cruzar a fronteira?

Para encerrar, algumas dicas para quem já trabalha com e-commerce no Brasil e de repente está pensando no cross border. Vender no exterior pode ser um excelente negócio, mas lembre-se que cada país segue uma legislação e tem meios de pagamento totalmente diferentes. Não é porque sua loja dá certo por aqui que vai dar certo no Peru também – lá só 12% das pessoas têm cartão de crédito, para ficar só em um dado.

E uma última coisa: esteja onde estiver, um antifraude que combine mais de um nível de atuação (como modelo de regras, comportamento de navegação e machine learning) é fundamental para você não ter prejuízos e personalizar estratégias para enfrentar o mexicano persistente, o brasileiro moderno, o argentino criativo, etc e etc!

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Eduardo Carneiro

Autor Eduardo Carneiro

Eduardo é jornalista formado pela Cásper Líbero e trabalhou em sites como Gazeta Esportiva, Terra e UOL ao longo da carreira. Na Konduto desde junho de 2019, escreve sobre as novidades do mundo da fraude e arrisca imitações de celebridades.

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